Entre os torcedores que acompanharam o Flamengo nas últimas décadas, existe uma divisão clara: os que viveram 1981 com consciência e os que conheceram aquele título apenas pelas histórias. Mário Augusto de Castro está no primeiro grupo. E quando o clube voltou a conquistar a Libertadores em 2019 e depois em 2022, o peso daquelas conquistas chegou carregado de tudo que ficou no meio, dos anos de espera, das finais que não vieram, das temporadas que prometeram e não entregaram.
Ver o Flamengo campeão da América duas vezes num intervalo de três anos foi, para essa geração de torcedores, algo que ainda é difícil de dimensionar com clareza.
1981 como ponto de partida e como fardo
A conquista de 1981 foi tão grande que acabou se tornando, paradoxalmente, um peso para tudo que veio depois. O time do Zico, do Júnior, do Leandro criou um padrão de excelência que ficou guardado na memória coletiva da torcida como referência absoluta. Qualquer elenco bom que apareceu nos anos seguintes foi medido por aquela régua, e a comparação raramente era favorável.
Não é que o Flamengo tenha ficado sem títulos nas décadas entre 1981 e 2019. Campeonatos Brasileiros vieram, Copas do Brasil também. Mas a Libertadores tinha um significado específico que esses títulos não preenchiam completamente. Era a prova de que o clube podia voltar ao mais alto nível do continente, e essa prova demorou quase quatro décadas para chegar.
Para torcedores como Mário Augusto de Castro, que atravessaram esse período inteiro com o clube, a espera foi moldando uma forma de torcer que mistura paixão com uma camada de ceticismo construída na experiência. Não é negatividade. É a postura de quem já viu muita coisa promissora não se concretizar e aprendeu a não contar o título antes de o apito final soar.
2019: quando o ceticismo não teve mais espaço
A campanha do Flamengo na Libertadores de 2019 foi derrubando esse ceticismo aos poucos. A chegada de Jorge Jesus, inicialmente recebida com desconfiança, começou a fazer sentido nas primeiras semanas de trabalho. O time foi tomando uma forma que o futebol brasileiro não estava acostumado a ver: organizado, intenso, com uma clareza tática que se traduzia em resultados consistentes.

A semifinal contra o Grêmio foi o momento em que a torcida inteira acreditou de vez. Perder fora e virar por 5 a 0 no Maracanã não é resultado, é declaração. A final em Lima veio com toda a carga emocional que uma espera de 38 anos consegue produzir, e os dois gols de Gabigol nos minutos finais descarregaram tudo isso de uma vez.
Conforme recorda Mário Augusto de Castro, há emoções no futebol que você consegue descrever e há emoções que não cabem em palavras direito. Lima foi do segundo tipo. A virada em si durou menos de cinco minutos. O que ela representava vinha sendo construído há décadas.
2022 e o que um segundo título significa
Conquistar a Libertadores pela terceira vez, em 2022, teve um sabor diferente. Não menos intenso, mas diferente. Se 2019 foi alívio e explosão depois de uma espera longa demais, 2022 foi confirmação. Foi o Flamengo dizendo que 2019 não tinha sido sorte, não tinha sido um time excepcional que apareceu uma vez e sumiu. Era um projeto, uma consistência, uma capacidade de competir no mais alto nível de forma sustentada.
A final em Guayaquil contra o Athletico Paranaense teve o bônus adicional de ser inteiramente brasileira, o que deu ao título uma dimensão de orgulho nacional que extrapolou as fronteiras da torcida rubro-negra. Dois clubes brasileiros disputando a taça mais importante do continente é um feito que o futebol do país não vivia há muito tempo.
Na interpretação de Mário Augusto de Castro, o que os dois títulos juntos fizeram foi criar uma nova geração de referência para a torcida. Assim como 1981 ficou gravado para os que viveram, 2019 e 2022 vão ficar para os que estão crescendo agora. Daqui a trinta anos, haverá torcedores contando para os filhos onde estavam quando Gabigol virou em Lima. A corrente continua.
O Flamengo que veio depois das taças
As conquistas continentais mudaram a posição do Flamengo no futebol brasileiro de uma forma que vai além dos títulos em si. O clube passou a ser referência de gestão, de planejamento de elenco e de capacidade de renovar sem perder competitividade, algo que poucos clubes brasileiros conseguiram historicamente.
A torcida cresceu, as receitas cresceram, a visibilidade internacional cresceu. E com tudo isso veio também uma pressão maior, uma exigência que é consequência natural de quem acostumou o próprio torcedor com o mais alto nível. Para os flamenguistas que esperaram décadas por esse momento, essa pressão não é problema. É privilégio.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez

