O panorama da infraestrutura de transportes no Brasil revela um problema grave de insuficiência de investimentos e paralisações de obras que comprometem o desenvolvimento e a mobilidade da população. Apesar de projeções de crescimento dos aportes, a realidade mostra uma contradição: obras essenciais paradas e infraestrutura deficiente em vários modais. Esse quadro dificulta o escoamento da produção, o deslocamento populacional e a competitividade econômica do país como um todo.
Segundo recentes dados do Tribunal de Contas da União, o número de obras de transporte paralisadas disparou de 108 em 2024 para 220 em 2025, representando um custo previsto de R$ 10,3 bilhões. Isso evidencia a gravidade do entrave estrutural. Quando os projetos não saem do papel ou são interrompidos, os prejuízos vão além do atraso na entrega: impactam diretamente a economia regional, a logística e o acesso da população a serviços básicos.
Ainda que a Confederação Nacional da Indústria estime aportes de cerca de R$ 277,9 bilhões em infraestrutura para 2025, com crescimento nominal de 4,2% em relação ao ano anterior, a proporção desse investimento em relação ao PIB permanece baixa, caindo de 2,27% para 2,21%. Ou seja: o esforço existe, mas não parece suficiente para reverter déficits históricos e a série de obras paralisadas que se acumula.
A priorização histórica quase exclusiva do modal rodoviário agrava a situação. Grande parte dos recursos públicos é direcionada para estradas, deixando em segundo plano ferrovias, hidrovias e transporte aquaviário, que poderiam oferecer rotas mais eficientes e sustentáveis para cargas e pessoas. Essa concentração torna o sistema vulnerável a atrasos e saturação, além de limitar o potencial de expansão logística do país.
Além disso, atrasos prolongados e paralisações geram desperdício de recursos e minam a credibilidade das políticas públicas. Obras que poderiam melhorar o transporte regional, facilitar o acesso a regiões interioranas e reduzir desigualdades logísticas acabam abandonadas. A consequência é dupla: péssima oferta de infraestrutura e recursos públicos comprometidos sem retorno à sociedade.
Enquanto isso, a ausência de modernização adequada impacta diretamente a economia: o transporte ineficiente encarece o custo de produção e logística, reduz a competitividade do Brasil no comércio internacional e prejudica o desenvolvimento regional. Isso se reflete no cotidiano das pessoas, com estradas ruins, transporte público deficiente e dificuldades de acesso.
Para reverter esse cenário, é urgente que haja uma mudança estrutural: investimentos consistentes, coordenação entre esferas federal, estadual e municipal e maior participação da iniciativa privada de forma transparente. Também é essencial priorizar modais como ferrovias e hidrovias, capazes de aliviar o peso sobre as rodovias e oferecer alternativas de transporte mais eficientes.
Somente com um programa de longo prazo, com planejamento técnico e compromisso real com a entrega, será possível destravar as obras paradas, recuperar confiança e construir uma infraestrutura de transportes capaz de atender às demandas do Brasil atual e futuro. A retomada dessas obras não deve ser apenas uma promessa, mas uma prioridade nacional para garantir desenvolvimento, mobilidade e qualidade de vida.
Autor: Vera Dorth

