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Início » Desperdício que aquece: Descubra como o lixo do dia a dia contribui para a crise climática  
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Desperdício que aquece: Descubra como o lixo do dia a dia contribui para a crise climática  

Riku HanamoriPor Riku Hanamori29 de maio de 20264 Mins de leitura
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Marcello José Abbud
Marcello José Abbud
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Para Marcello José Abbud, diretor da Ecodust Ambiental, a conexão entre resíduos sólidos e mudanças climáticas ainda é subestimada no debate público brasileiro. Enquanto setores como energia, transporte e agropecuária concentram as discussões sobre emissões de gases de efeito estufa (GEE), o lixo segue contribuindo de forma silenciosa e crescente para o aquecimento global, sobretudo nos municípios que ainda dependem de lixões e aterros sem aproveitamento energético.

O setor de resíduos responde por cerca de 5% das emissões globais de GEE, segundo o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC). No Brasil, esse percentual é ainda mais preocupante pela quantidade de matéria orgânica presente nos resíduos domésticos, que favorece a geração de metano, um gás com potencial de aquecimento global cerca de 80 vezes superior ao do dióxido de carbono no horizonte de 20 anos. Ignorar essa equação é ignorar uma parte relevante da crise climática.

Gestores públicos e profissionais do setor de saneamento precisam compreender esses mecanismos para tomar decisões mais embasadas sobre infraestrutura e tecnologia. Continue lendo para entender como o resíduo se transforma em problema climático e quais caminhos existem para mudar esse quadro.

Como os resíduos geram gases de efeito estufa?

A decomposição anaeróbica da matéria orgânica é o principal mecanismo pelo qual os resíduos contribuem para as emissões de GEE. Quando restos de alimentos, papel e outros materiais biodegradáveis são enterrados em aterros ou depositados em lixões sem controle, bactérias anaeróbicas os decompõem na ausência de oxigênio, gerando biogás, uma mistura composta majoritariamente por metano e dióxido de carbono. Tal como considera Marcello José Abbud, o problema é agravado pela composição típica do resíduo doméstico brasileiro, que contém entre 50% e 60% de matéria orgânica, uma das proporções mais altas do mundo.

Em lixões a céu aberto, esse metano é liberado diretamente para a atmosfera sem qualquer aproveitamento ou controle. Aterros sanitários bem operados podem capturar parte desse gás e utilizá-lo para geração de energia, mas no Brasil apenas uma fração das unidades existentes conta com sistemas de drenagem e aproveitamento de biogás funcionando adequadamente.

Marcello José Abbud
Marcello José Abbud

Quais tecnologias permitem transformar o resíduo em solução climática?

A mudança de perspectiva mais importante, segundo Marcello José Abbud, é tratar o resíduo orgânico não como problema a ser enterrado, mas como recurso energético e agrícola a ser aproveitado. A compostagem em larga escala e a biodigestão anaeróbica são as duas tecnologias com maior potencial de impacto climático positivo no contexto brasileiro, especialmente para municípios de médio porte que geram volumes suficientes para viabilizar plantas de tratamento.

A biodigestão captura o metano que seria emitido para a atmosfera e o converte em biogás utilizável para geração de energia elétrica, calor ou biometano injetável na rede de gás natural. O digestato resultante do processo pode ser aproveitado como fertilizante orgânico, criando uma cadeia de valor que reduz emissões, substitui combustíveis fósseis e diminui o uso de fertilizantes sintéticos na agricultura.

O que a coleta seletiva tem a ver com a redução de emissões?

A separação na fonte é frequentemente tratada como pauta de reciclagem, mas seu impacto climático é igualmente relevante. Como empresário e especialista em soluções ambientais, Marcello José Abbud, expressa que quando a matéria orgânica é segregada dos demais resíduos, ela pode ser encaminhada para compostagem ou biodigestão de forma muito mais eficiente, sem a contaminação cruzada que inviabiliza o tratamento em sistemas de coleta misturada.

Reciclar materiais como alumínio, papel e plástico também reduz emissões de GEE de forma indireta: a produção a partir de material reciclado consome significativamente menos energia do que a produção a partir de matéria-prima virgem. O alumínio reciclado, por exemplo, consome cerca de 95% menos energia do que o produzido a partir da bauxita, o que representa uma redução direta nas emissões associadas ao setor industrial.

Resíduos, clima e a urgência de decisões municipais

O aquecimento global é frequentemente debatido como um problema de escala nacional ou internacional, mas suas soluções dependem, em larga medida, de decisões tomadas nos municípios.  Marcello José Abbud pontua, por fim, que cada tonelada de resíduo orgânico desviada de um lixão e destinada à compostagem ou biodigestão representa uma contribuição concreta para as metas climáticas brasileiras, com benefícios que se traduzem em saúde pública, economia de energia e geração de renda local. Tratar resíduos adequadamente não é apenas uma obrigação legal: é uma das formas mais acessíveis e mensuráveis de reduzir emissões de GEE no curto prazo, algo que gestores públicos podem começar a implementar antes do próximo ciclo eleitoral.

Autor: Diego Rodríguez Velázquez

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