A Organização Mundial da Saúde (OMS) apresentou uma ferramenta de autoavaliação destinada a governos e profissionais envolvidos na formulação de políticas de dados de saúde. O material foi divulgado em 22 de outubro de 2026 pelo escritório regional da entidade para a Europa e desenvolvido em parceria com a Universidade de Zurique.
A proposta surge em um momento de expansão dos serviços digitais na área da saúde, que dependem cada vez mais de informações produzidas, armazenadas e compartilhadas em ambientes eletrônicos. Nesse cenário, a OMS defende que a adoção de tecnologia precisa ser acompanhada por critérios de confiança, transparência e participação social.
De acordo com o comunicado da Organização Mundial da Saúde, o instrumento foi criado para apoiar países na incorporação desses aspectos às estratégias de saúde digital. A ferramenta não pretende substituir leis, regulamentações ou processos oficiais de avaliação.
Como funciona a ferramenta da OMS
O recurso orienta os responsáveis por políticas públicas a examinar de que maneira a confiança é considerada durante a elaboração e a revisão de medidas relacionadas ao uso de dados de saúde. A análise pode ajudar equipes a identificar pontos que afetam a percepção dos cidadãos e a legitimidade das decisões.
Entre as questões propostas está a definição de quem deve participar das discussões sobre dados de saúde e em quais etapas essa participação deve ocorrer. O material também estimula a reflexão sobre os momentos em que a confiança da população pode ser afetada e sobre as condições necessárias para implementar políticas de maneira mais segura.
A aplicação foi pensada para ser participativa. Isso significa que a avaliação pode envolver equipes de ministérios, gestores públicos e outros profissionais ligados à formulação de políticas digitais. O objetivo é favorecer uma discussão organizada sobre responsabilidades, transparência e relação com os usuários dos serviços de saúde.
Instrumento não cria nota nem certificação
Um dos pontos destacados pela OMS é que a ferramenta não gera uma pontuação. Também não se trata de uma certificação internacional ou de um selo que classifique governos e instituições conforme o nível de confiança de suas políticas.
Na prática, o material funciona como um apoio à reflexão e à revisão de estratégias. Seu uso pode ajudar os responsáveis a reconhecer lacunas, organizar perguntas e discutir medidas antes da implementação ou durante a atualização de políticas relacionadas aos dados de saúde.
Essa característica diferencia a proposta de mecanismos formais de auditoria ou de conformidade. A ferramenta não estabelece, por si só, uma nova obrigação para os países. A intenção é oferecer uma estrutura para que as próprias equipes públicas avaliem como a confiança está sendo considerada em suas decisões.
Por que a confiança é central na saúde digital
A digitalização da saúde envolve diferentes tipos de sistemas e serviços, como prontuários eletrônicos, plataformas de atendimento e soluções que utilizam inteligência artificial. Embora essas tecnologias possam apoiar a organização e o uso de informações, sua adoção também depende da clareza sobre como os dados são tratados.
Para os cidadãos, compreender quem participa das decisões, quais são as finalidades das políticas e em que condições as informações podem ser utilizadas é parte importante da relação com os serviços digitais. Sem transparência, a modernização tecnológica pode encontrar resistência ou ter sua legitimidade questionada.
A abordagem da OMS coloca a governança no centro desse processo. Mais do que adquirir sistemas, governos precisam discutir responsabilidades, participação e comunicação com a sociedade. A confiança, nesse contexto, não é apresentada como um resultado automático da tecnologia, mas como um elemento que deve ser considerado desde o planejamento das políticas.
Relevância para políticas públicas no Brasil
Embora o anúncio tenha sido feito pelo escritório regional da OMS para a Europa, o tema tem alcance internacional. O Brasil também amplia a digitalização de serviços de saúde e acompanha o avanço de soluções informatizadas, o que torna relevante observar como outros governos podem estruturar avaliações sobre o uso de dados.
O instrumento pode servir como referência para debates sobre transparência e participação em iniciativas públicas que envolvam informações de saúde. Sua utilidade, porém, está no apoio à análise: a ferramenta não substitui a legislação de cada país nem define uma política única para todos os sistemas de saúde.
Ao apresentar o recurso, a OMS reforça que a transformação digital precisa ser acompanhada por decisões compreensíveis e responsáveis. A discussão sobre dados de saúde, portanto, ultrapassa a dimensão técnica e envolve também a confiança dos cidadãos, a governança das informações e a legitimidade das políticas adotadas.

