Pesquisa da CNC mostra que mais de 8 em cada 10 famílias têm dívidas a vencer; juros altos e crédito rotativo aparecem como principais causas
O ano de 2026 tem sido marcado por um dado preocupante sobre a saúde financeira das famílias brasileiras. Segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor, feita mensalmente pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo, 81,6% das famílias relataram possuir dívidas a vencer em junho, o mesmo percentual registrado em maio, enquanto a inadimplência se manteve em 29,9%. Os números representam uma sequência de recordes na série histórica da pesquisa, que existe desde 2010, e mostram que o problema não é passageiro, mas vem se acumulando mês após mês ao longo do ano. PANROTAS
Para entender a dimensão desse avanço, vale olhar a trajetória recente. Em fevereiro, o índice já havia chegado a 80,2%, também um recorde histórico até aquele momento, com avanço de 0,7 ponto percentual em relação a janeiro e alta de 3,8 pontos na comparação com fevereiro de 2025. Em abril, o indicador seguiu subindo e atingiu 80,9%, no que foi descrito como o quarto mês consecutivo de alta, evidenciando que o fenômeno vinha ganhando força de forma consistente antes de se estabilizar no patamar atual, ainda assim historicamente elevado. Portal do Comércio
Por que as famílias brasileiras estão mais endividadas
Um dos fatores mais citados por economistas para explicar esse cenário é a manutenção da taxa Selic em níveis elevados desde 2025, o que torna o crédito mais caro em praticamente todas as suas modalidades. O presidente do Sistema CNC-Sesc-Senac, José Roberto Tadros, chegou a afirmar que o endividamento das famílias atingiu um patamar crítico e inédito, asfixiado pela manutenção da Selic em níveis elevados, uma leitura compartilhada por outros analistas do mercado financeiro. O economista-chefe da entidade também chamou atenção para o retorno do crescimento da inadimplência depois de um período de queda, avaliando que esse é um sintoma direto do desgaste que o longo ciclo de juros altos provoca no orçamento doméstico. Portal do Comércio
Além da Selic elevada, outros elementos aparecem como pressão adicional sobre o bolso das famílias, entre eles o crescimento do uso do crédito rotativo do cartão, o custo de vida em alta e, mais recentemente, o avanço das apostas online sobre o orçamento doméstico, fator que tem preocupado tanto economistas quanto parlamentares. Um dado que chama atenção é que o avanço do endividamento em 2026 não ficou restrito às famílias de menor renda: levantamentos da própria CNC identificaram crescimento particularmente forte entre domicílios com renda acima de cinco salários mínimos, sinalizando que mesmo quem tem maior poder aquisitivo tem recorrido ao crédito para financiar o consumo e administrar o fluxo de caixa mensal.
As diferenças entre as capitais brasileiras
O peso do endividamento não é uniforme entre as regiões do país. Levantamentos sobre inadimplência mostram que capitais como Belo Horizonte lideram os índices mais altos, com uma parcela significativa das famílias enfrentando dificuldade para quitar seus compromissos, seguida por cidades como Manaus, Fortaleza, Goiânia e o Distrito Federal, todas com índices bem acima da média nacional. Do outro lado dessa lista, João Pessoa e Curitiba aparecem entre as capitais com os menores percentuais de contas em atraso, uma diferença que costuma ser atribuída a fatores como o custo de vida local, o perfil de renda da população e o acesso a programas municipais de orientação financeira.
Esse retrato regional reforça que o endividamento não pode ser explicado apenas por um único fator nacional, já que a realidade econômica de cada cidade, o nível de emprego formal e até hábitos de consumo locais entram na equação. Para quem acompanha os indicadores econômicos do país, esses dados regionais funcionam como um termômetro sobre onde as políticas de proteção ao consumidor e de educação financeira poderiam ter maior impacto.
O que o governo e o Congresso têm discutido sobre o tema
Diante do cenário, o governo federal relançou em maio o programa Novo Desenrola Brasil, por meio da Medida Provisória 1.355/2026, com o objetivo de ampliar a renegociação de dívidas para famílias em situação de inadimplência. A proposta, no entanto, divide opiniões no Congresso: enquanto alguns parlamentares defendem mecanismos permanentes de proteção ao consumidor e o fortalecimento de políticas de educação financeira para evitar o chamado efeito bola de neve das dívidas, outros argumentam que programas de renegociação não resolvem o problema estrutural do endividamento nem reduzem a inadimplência no longo prazo.
Independentemente do resultado dessas discussões, especialistas concordam que a combinação de juros altos, uso intenso do crédito rotativo e custo de vida elevado exige atenção redobrada das famílias na hora de planejar o orçamento. Organizar os gastos mensais, priorizar o pagamento das dívidas com juros mais altos e buscar orientação antes de recorrer a novos financiamentos continuam sendo os passos mais indicados para quem quer evitar entrar na estatística de famílias que declaram não ter condições de pagar suas contas em atraso, parcela que já supera um em cada oito domicílios brasileiros segundo os dados mais recentes da pesquisa.
Fontes consultadas: https://www.panrotas.com.br/mercado/economia-e-politica/2026/07/endividamento-das-familias-fica-em-816-e-inadimplencia-se-mantem-em-299-em-junho_230200.html | https://portaldocomercio.org.br/economia/cnc-endividamento-das-familias-bate-novo-recorde-historico-em-fevereiro/ | https://www12.senado.leg.br/noticias/infomaterias/2026/05/dividas-em-recorde-assombram-as-familias-brasileiras | https://oespecialista.safra.com.br/endividamento-recorde-familias-maior-renda-fevereiro-2026/

