Demonstrações de ferramentas de inteligência artificial costumam ser impressionantes, e Murilo Moura Alencar, C-Level e board member, percebe que é justamente por isso que decisões de compra nessa área exigem cuidado redobrado. Em meia hora de apresentação, tudo funciona. O fornecedor escolhe os exemplos, prepara os dados e mostra o melhor cenário possível. Ninguém vê, naquele momento, as respostas erradas, os custos de escala ou a dificuldade de sair do contrato.
A pergunta que interessa é outra: como a ferramenta vai se comportar com os dados, as pessoas e os processos da sua empresa, meses depois da assinatura do contrato. A seguir, quatro perguntas que ajudam a separar uma boa solução de uma boa apresentação.
O que acontece com os dados que enviamos?
Um gerente coloca uma proposta comercial na ferramenta para pedir um resumo, e, consequentemente, uma série de perguntas surgem: para onde vai esse texto, por quanto tempo ele fica armazenado, para que ele seria usado…
As respostas precisam estar no contrato, e não apenas no discurso comercial. Empresas brasileiras também precisam verificar se o uso está de acordo com a Lei Geral de Proteção de Dados, a LGPD, sobretudo quando a ferramenta processa informações de clientes ou funcionários. Saber em que país os dados ficam e quem tem acesso a eles faz parte da mesma conversa.
Como a ferramenta se sai com o nosso caso real?
Resultados de demonstração dizem pouco. O teste que importa usa documentos, perguntas e situações da própria empresa, incluindo os casos difíceis, ambíguos e mal formatados que aparecem no dia a dia.
Murilo Alencar sugere montar, antes da avaliação, um pequeno conjunto de exemplos com respostas conhecidas. Assim, a comparação entre fornecedores deixa de depender da impressão de quem assistiu à apresentação e passa a se apoiar em acertos e erros concretos. O mesmo conjunto serve, depois da contratação, para verificar se novas versões da ferramenta melhoraram ou pioraram.
Quanto isso vai custar quando todos usarem?
Muitas ferramentas de IA cobram pelo volume de uso, e não apenas por licença. Um piloto com dez pessoas pode custar pouco. A mesma solução com mil usuários, consultando documentos longos várias vezes por dia, pode gerar uma conta muito diferente.
Vale pedir ao fornecedor simulações baseadas em cenários realistas e entender o que acontece quando o consumo ultrapassa o previsto. Também é importante incluir na conta os custos que não aparecem na proposta, como integração com sistemas existentes, treinamento das equipes e o tempo de quem vai revisar os resultados.
E se precisarmos sair?
Poucas empresas perguntam isso antes de assinar, e muitas se arrependem depois. O mercado de inteligência artificial muda rápido, e o fornecedor escolhido hoje pode não ser a melhor opção daqui a dois anos, seja por preço, qualidade ou estratégia.
Na visão de Murilo Moura Alencar, a empresa precisa saber se consegue exportar seus dados, configurações e históricos em formatos utilizáveis, e quanto trabalho seria necessário para trocar de solução. Arquiteturas que permitem substituir o modelo por trás da ferramenta, sem refazer tudo, reduzem essa dependência. Cláusulas sobre devolução e exclusão de dados ao fim do contrato completam essa proteção.
Comprar IA é comprar uma relação
Diferentemente de um software tradicional, que muda pouco depois de instalado, ferramentas de inteligência artificial evoluem o tempo todo, para melhor ou para pior. Murilo Alencar pontua que isso transforma a compra numa relação contínua, que precisa ser acompanhada com critérios claros.
Fazer as perguntas certas antes da assinatura não garante sucesso, mas evita as surpresas mais caras. E ter essas respostas por escrito dá à empresa algo que nenhuma demonstração oferece: a capacidade de cobrar o que foi prometido. Revisitar essas perguntas a cada renovação mantém a relação saudável e a empresa no controle das próprias escolhas.

